Ao longo do século passado, ocorreu um intenso fenômeno de
escolarização da população brasileira, quando a expansão na oferta de
vagas passou a incluir pessoas pelo Brasil inteiro, não sem os seus
problemas e contradições. Entre 1897 e 1980, houve uma paradoxal
“tendência secular” no analfabetismo: a diminuição progressiva das
taxas de analfabetismo ocorrendo simultaneamente ao aumento do número
absoluto de analfabetos. Isto é, o nosso país “fabricava” mais analfabetos em número, mas a proporção destes caía (FERRARI, 1985). Ainda hoje, a plena alfabetização da população é uma meta a ser alcançada.
Em 2009, existiam 14,5 milhões de brasileiros/as “que não sabiam ler ou escrever um bilhete”, conforme estudo de
Fúlvia Rosemberg e
Nina Madsen (2011), sendo um pouco mais da metade (51%) de mulheres. Assim como aconteceu com a
longevidade escolar,
o analfabetismo também sofreu um “hiato de gênero”, isto é, com o
passar das gerações, inverteu-se a relação entre homens e mulheres
analfabetos/as, como podemos observar na Figura 1 abaixo.

Taxa de analfabetismo por grupos de idade, segundo o sexo. (Fonte: PNAD 2009)
Por esse gráfico, notamos que
a proporção de homens
analfabetos supera a das mulheres em todos os grupos de idade, com
exceção da faixa etária igual ou superior a 50 anos. Isso
reflete a histórica exclusão das mulheres do sistema educacional. Antes,
elas acessavam menos a escola. A partir do momento em que se
universalizou o ensino, elas passaram a ser as maiores beneficiadas nos
mais variados indicadores educacionais utilizados – e com a
alfabetização, como se vê, não é diferente.
Mas, a desigualdade de gênero na alfabetização não é o maior dos
problemas. Pelo contrário, Rosemberg e Madsen (2011) afirmam que
o
sexo é a variável que apresenta menor diferencial nessas taxas. O
problema é muito mais grave quando olhamos para a questão racial.
Se compararmos as taxas de alfabetização de homens brancos e negros
(pretos + pardos), na Figura 2, veremos que as disparidades são
assustadoras.

Taxa de analfabetismo de homens por grupos de idade, segundo a cor/raça. (Fonte: PNAD 2009, baseado em ROSEMBERG & MADSEN, 2011)
Vemos que na maior parte dos grupos de idade, a proporção de negros analfabetos chega a superar a de brancos.
E se olharmos para as estatísticas sobre mulheres? Poderíamos esperar
que elas, por serem mais escolarizadas, talvez já tivessem equalizado as
desigualdades raciais. Muito pelo contrário!
As desigualdades persistem com a mesma intensidade entre mulheres brancas e negras (pretas + pardas), como podemos observar na Figura 3.
Tanto o gráfico acima quanto o gráfico abaixo partem dos mesmos dados
e foram elaborados na mesma escala, então é possível comparar o tamanho
das colunas entre os dois.
Note que, de fato, as mulheres são
mais bem escolarizadas, mas as diferenças entre brancos/as e negro/as
são altas para ambos os sexos.

Taxa de analfabetismo de mulheres por grupos de idade, segundo a cor/raça. (Fonte: PNAD 2009, baseado em ROSEMBERG & MADSEN, 2011)
É válido adicionar que a elevação das taxas de analfabetismo no Brasil é muito lenta, conforme conclui
Alceu Ferraro (2011), para ambos os sexos. Com efeito, em 2010 técnicos do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) demonstraram que
a
redução das taxas de analfabetismo não resulta de políticas públicas
voltadas para o combate ao analfabetismo em toda a população brasileira.
Na realidade, são dois os fatores que explicam essa redução: (1)
a escolarização da população mais jovem e (2)
a morte da população mais idosa, na qual se concentram os analfabetos. É a velha de política de erradicar o analfabetismo pela
morte dos analfabetos.
Enquanto isso, tenta-se cuidar da alfabetização da população jovem.
Pelo gráfico abaixo (Figura 4), podemos perceber que, de fato, ao longo
dos anos escolares ocorre a alfabetização das crianças, mas de forma
completamente desigual.

Trajetória
da taxa de alfabetização entre as crianças e jovens de 5 a 14 anos,
segundo a idade, por sexo e cor/raça. (Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2000, extraído de FERRARO, 2011)
Repare que as taxas de alfabetização de brancos/as são superiores as
de negros/as. Dentro de uma mesma cor/raça, temos a desigualdade de
gênero. Ferraro (2011) conclui que
as desigualdades de raça, como dissemos, são mais acentuadas que as de gênero, o que não invalida o peso desta última.
Ainda, é na idade dos sete anos que as desigualdades estão mais
intensas, tornando-se mais amenas nos anos finais da escolarização
básica.
É importante conjugar esses aspectos com outros indicadores
educacionais para entender por que reproduzimos desigualdades
educacionais tão marcantes, em especial no que diz respeito à cor/raça. O
relatório do IPEA (2010) ainda reforça que os cursos de alfabetização
para jovens e adultos tem sido subutilizados, o que coloca sobre a
educação básica a maior responsabilidade pela educação e alfabetização
de meninas e meninos, brancas/os e negras/os.
Ler e escrever são direitos de toda a população e cabe ao Estado, em
seu dever inegável, tomar para a si a responsabilidade de investir na
educação de forma a democratizar esses e outros direitos do campo
educacional.
VIA http://ensaiosdegenero.wordpress.com/2012/08/31/alfabetizacao-genero-e-raca-no-brasil-as-desigualdades-no-ler-e-escrever/